quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Pelos olhos de um visitante.

Em busca da minha saciedade, física e espiritual, andava eu por aquelas terras tão pouco exploradas por meus companheiros. Surpreendentemente, até, a julgar pela incrível beleza do lugar.

Até chegar ao paraíso, o caminho era como outro qualquer. Uma terra chamada Alagoas, cheia de estradas cinzas e sem vida, que os mais desenvolvidos chamam de “asfalto”, à exceção de umas poucas árvores no meio do caminho, que tiveram suas vidas quase inteiramente sugadas pelo sol escaldante.

Mas eu tinha que continuar. Eu sabia que estava no caminho certo, o cheiro que me atraía, apesar de vindo de longe, era bastante expressivo. Eu ia chegar lá e todo o meu esforço valeria a pena.

Enxerguei o primeiro sinal que indicava que eu estava perto. Como meu pai havia dito antes de morrer, o nome da cidadezinha era “Boca da Mata”, um nome justificável pelo enorme túnel de árvores que levava à civilização. Mas eu não queria ver a civilização. Decepcionou-me o fato de que fui recebido na entrada da cidade por uma quantidade exorbitante de lixo depositada em ambos os lados. Franzi o nariz. Eu precisava sentir a presença da flora. Segui viagem.

Foi quando percebi o segundo sinal imprescindível para o meu destino. Quando rapidamente cheguei a uma estradinha de barro quase imperceptível, vi aquele infinito território verde, que margeava o asfalto e camuflava os caminhos. Verde de cana, muita cana. No auge de sua beleza. Florescendo. Animei-me no mesmo segundo. Meu pai estava certo. Era a viagem da minha vida. Continuei, sem perder nenhum detalhe, favorecido pela minha visão aguçada.

Aparentemente, sabia aquele caminho de cor. Meu pai havia passado a vida inteira falando daquele que tinha sido o lugar mais bonito que ele visitara. Como bom aprendiz, segui seus passos e suas instruções.

Mas era muito difícil. O lugar era um labirinto. Mais e mais estradas de barro, todas bastante escondidas por entre as altas plantações de cana. E, realmente, a cana não tinha fim. Hectares e hectares divididos entre diversos donos. E o meu paraíso corria o risco de ser perdido naquele caminho praticamente indecifrável.

Eu não podia desistir. A voz de meu pai martelava na minha cabeça: “Você vai conseguir chegar lá. Vai ver a perfeição materializada na natureza. Você nunca mais vai querer ir embora”, ele sempre dizia.

Até que, depois de horas e horas procurando, exausto e faminto, eis que encontro o trecho final da minha jornada, bem como meu pai descreveu. “Depois de muito vagar, muito duvidar da sua capacidade de chegar ao final, você vai ver a chave do paraíso. Encontrará a tesoura. Ela te dará duas opções de caminho: é o da esquerda que você deve escolher. Depois, siga reto pela estrada de barro, e quando seu campo de visão alcançar 360° de pastos incrivelmente verdes e vibrantes, à sua direita você encontrará a ladeira que te levará ao seu destino. Ao chegar lá, aproveite cada segundo do período mais incrível de sua vida. Lembre de mim.”, gabava-se o velho.

Nervoso com a iminência do meu sucesso, fui descendo a ladeira bastante íngreme, contemplando a beleza do lugar. Claro, havia pessoas, afinal de contas, era uma fazenda. Pequenas casas simples, com paredes brancas e portas e janelas azul-marinho, abrigavam os moradores e intercalavam as plantações que alimentavam as famílias locais. Aquelas casinhas rústicas, percebi, faziam parte das histórias de famílias inteiras, e davam mais vida ao local. Por trás das casinhas, além do horizonte, os pastos seguiam encantadores, tão verdes e brilhantes que me encandeavam os olhos.

Fui descendo. Quando a estrada começava a ficar plana, avistei um riacho à minha direita. O barulho era tão hipnotizante que tive que parar alguns segundos. Aproveitei para beber um pouco d’água, o longo caminho tinha me deixado com sede. Meu corpo pequeno tremia de excitação, estava a um minuto de alcançar meu sonho. Nunca amei tanto meu pai. Ele me proporcionara aquela emoção.

Passei por um portão de madeira, que me levou a um pequeno trecho, onde de um lado encontravam-se mangueiras, de outro, mais uma casa, dessa vez um pouco maior. Deveria ser o homem de confiança do dono da fazenda. Ah, o fazendeiro deveria ter mãos de ferro para comandar e fazer andar aquele lugar. Poucos teriam aquela força. Era muita beleza para um lugar só.

Já estava chegando. Podia ouvir aquele barulho suave, encantador e penetrante da água, bem como meu pai descrevera. Hesitei um pouco. Eu chegara. Diante de mim estava a tão sonhada Fazenda Góes. Respirei fundo, segui.

Meu Deus. Como aquilo era possível? Como um lugar poderia ser daquele jeito, tão inexplicável? Definitivamente, meu pai tinha razão. Aquilo era inimaginável, a coisa mais perfeita que eu já tinha visto e que eu iria ver em toda a minha existência.

Assim que cheguei até a Casa Grande, avistei à minha direita aquela água límpida, caindo despreocupadamente no chão, sendo reaproveitada por um tanque que era cheio de escuros peixes, logo à minha esquerda, atrás das primeiras flores coloridas que avistei. Ah, as flores. Que perfume! Quase não resisti, mas minha ânsia de explorar era grande demais para que eu parasse naquele momento.

A casa, com as mesmas características que as pequenas casinhas ao longo da ladeira, só que bem maior, estava no centro da área, a fim de poder avistar de todos os ângulos aquela beleza sem tamanho.

Continuei meu percurso. Ainda à minha esquerda, do lado direito da casa, estava uma linda cabaninha, coberta com uma espécie de palha escura, que constituía um ótimo lugar para descansar, com suas redes, banquinhos e sofás convidativos. Imaginei que o dono da casa passava horas do seu dia contemplando o seu trabalho.

Atrás da cabaninha, mais grama perfeitamente bem cuidada e vivaz, e uma mini-praça redonda, com mais flores lindas e chamativas, mais banquinhos para conversar e admirar a paisagem. Dali, podia-se ver os horizontes, os pastos, o gado, a natureza infinita.

Por trás da casa havia uma pequena floresta, com espécies mais que variadas de plantas e animais. Mais flores, mais vida, mais sabor. Meu Deus, era incrível! Ao lado da floresta, ainda por trás da casa, mais grama, mais flores. Onde eu ia chegar?

Agora o lado esquerdo da casa. Mais natureza. Mais água, uma flora riquíssima, mais lugares para explorar. Árvores frutíferas eram encontradas em outra pequena floresta que seguia até caminhos indescritíveis. Aquela beleza não tinha fim.

Na frente da casa, além de um muro de barro forrado pela grama mais verde que eu já vira, havia mais uma linda e pequenina cachoeira, derramando aquela água pura. E Ela. Uma imagem feita de gesso de Maria, nossa Mãe, abençoando cada ser vivo daquele lugar. A perfeição fazia sentido, então.

Estava decidido, eu nunca deixaria aquele lugar! Precisava conhecer meus companheiros, então. O dono daquele lugar. Deveria agradecê-lo, mesmo que só em pensamento.

Entrei na casa. A porta da frente dava na sala principal, modesta, confortável, que continha diversos porta-retratos nas paredes, que deveriam ser da família. A rede, peça indispensável para o dono da casa, notei, estava ao meu lado esquerdo, escondida no fundo da parede. À sua frente estavam os sofás, a mesinha de centro e a televisão. Logo em cima do sofá maior, encostado na parede que dividia dois quartos, havia um quadro que retratava um homem de feições fortes, porém surpreendentemente doces. Com certeza, era o senhor da casa. Os dois quartos davam com a porta na sala. A televisão era coletiva.

A casa era um vão só, toda na horizontal. O próximo ambiente era a sala de jantar. A mesa do jantar ficava no centro. Do lado direito, um móvel antigo, rústico. Do lado esquerdo, outro móvel, um pouco mais moderno, cheio de fotos em porta-retratos que ficavam na sua bancada. A parede que continha o móvel, à esquerda, dividia os outros dois quartos, que davam com a porta na sala de estar. Ainda do lado esquerdo, do outro lado da porta do primeiro quarto da segunda sala estava uma cadeira de balanço.

Em seguida, vinha um ambiente onde, provavelmente, a família fazia as refeições diárias. Do lado esquerdo ficava a cozinha, o local mais convidativo da casa para muitos. Um banheiro e a despensa ficavam também naquele ambiente.

Ao sair da cozinha, encontrava-se a área de serviço, com uma vista privilegiada da casa, aquela vista do lado esquerdo, descrita anteriormente por mim. Quem trabalhava naquele lugar tinha sorte!

Enfim, tinha conhecido toda a casa. Faltava saber quem morava ali. Meus companheiros.

Enquanto vagava e aproveitava para cheirar algumas daquelas intensas flores, procurava pelo homem que fazia aquele lugar funcionar, ser a paisagem mais incrível do planeta. Foi quando enxerguei uma mulher, cabelos brancos que denunciavam a idade, dona de um rosto encantador, mascarado pelas rugas intensificadas pelo trabalho ao sol, imaginei. De enxada a tiracolo, suada, mãos na terra, cultivando as plantações. Pela sua dedicação, entendi que aquilo tudo lhe pertencia. Fiquei surpreso. Aquele trabalho era, normalmente, de um homem. E ela gritava: “Diiiiiiiitooooooo! Ô, Ditooooo! Vem cá!”. E lá vinha ele, um jovem cheio de força, e ajudava-a no trabalho árduo.

Assim como Dito, Cícero e Ana eram os outros nomes repetidamente chamados por ela. Continuei meu caminho, alimentando-me, extremamente feliz e curioso com o ambiente incomum. Pensei que aquela senhora não deveria morar sozinha naquela casa grande. Adentrei mais uma vez pela casa à procura de mais alguém, o marido, talvez.

Resolvi entrar nos quartos, a fim de encontrar vestígios de novas pessoas por lá. Os dois primeiros quartos da casa, que eram ligados à sala de televisão, estavam impecavelmente arrumados, sem sinais de habitação. Entretanto, o terceiro quarto, o primeiro da segunda sala com os dois móveis de estilos opostos, estava ocupado.

Entrei, curioso. O quarto era um retângulo pequeno, pouco mobiliado. A janela era bem em frente à porta, e dava uma visão da parte de trás da casa. O quarto tinha um guarda-roupas antigo do lado esquerdo, mais uma cadeira de balanço ao lado do guarda-roupas, um móvel do mesmo estilo logo abaixo da janela, e, do lado direito, a cama encostada na parede. O que me chamou a atenção, principalmente, foi a quantidade de imagens de Jesus, Maria, e de todos os Santos, juntamente com Bíblias e terços. Família bastante religiosa, admirei. O penico logo abaixo da cama e o odor penetrante da urina denunciavam que ali vivia uma pessoa bastante idosa.

Mas eu não precisei decifrar signos para entender isso. Afinal de contas, ela estava lá. Uma linda senhora, bem mais velha do que a que trabalhava lá fora, encurvada e enrugada pelo tempo de vida, sentada à cadeira de balanço, concentrada, de terço na mão. Provavelmente, a mãe da primeira senhora. Estava louco para conhecer melhor aquela família.

Procurei por mais pessoas, talvez o marido da senhora da enxada, seus filhos e netos, quem sabe. Ninguém mais, a não ser por uma linda criança, dos seus 6, 7 anos, brincando alegremente na cachoeira da entrada da casa. Como era linda e vivaz! Magra, de pele morena clara, cabelos cacheados, castanhos e de pontas claras, e os olhos! Ah, os olhos! Eram de um caramelo esverdeado, de um tamanho tão expressivo que chegavam a ser hipnotizantes. Deveria ser o cristal da família. Ela nem notou minha presença. Continuei passeando, então, me admirando.

É, definitivamente não havia uma figura masculina morando ali. Fiquei impressionado com a força daquela mulher. Resolvi tentar conhecê-la melhor, já que ia passar o resto da minha vida ali, como tinha decidido.

Como eu era um ser de sorte! Pouco tempo depois, escutei a senhora de força chamar pela criança: “Natália, venha aqui na sala para eu te contar um pouco da história da nossa família, como você pediu!”. E lá foi aquela linda menina, que eu agora sabia como se chamava. E eu fui junto.

Fiquei perto das flores que ficavam no canto da sala, ao lado do segundo quarto, enquanto as duas deitavam-se confortavelmente na rede. Enquanto eu esperava que a senhora começasse a história, vi ao lado da televisão um porta-retrato que continha uma foto dela mais nova junto com seu nome embaixo, Maria da Paz Rocha Sampaio. Agora eu começava a conhecer melhor aquelas pessoas. Encontrei também um pequeno livro, referente à celebração eucarística dos 100 anos da senhora mais velha, Eurídice. Cem anos. Ao redor de sua foto, os rostos e nomes dos seus filhos estavam estampados. Augusto, Maria Bernadete, Teresinha, Hilda, Maria da Paz, Assis, Antônio e Maria do Amparo. Ao lado dos nomes de Teresinha e Assis, uma cruz indicava seus falecimentos.

E Maria começou.

“Há muitos anos atrás, meu marido, Geraldo, comprou essa fazenda aqui. Nós dois trabalhamos duro para construir tudo isso que você está vendo. Foram anos e anos de dificuldade, mas de uma vida cheia de amor e realizações, e foi aqui onde nós criamos nossas duas filhas: Clarissa e Sílvia.”

“As duas casaram, foram morar em Maceió e construíram suas vidas por lá. Clarissa, a mais velha, teve 4 filhas, 3 de sangue e 1 de coração, e Sílvia teve 1 filho e 1 filha, como você bem sabe. E eu continuei minha vida com meu marido por aqui”.

Natália ouvia curiosa cada palavra que Maria da Paz dizia. Ela continuou.

“Certo dia, Geraldo saiu da fazenda para ir a uma cidade chamada Campo Alegre, junto com seu irmão, Francisco, marido da minha prima Dagmar. Algumas horas depois, recebi a notícia de que tinha havido um acidente, e que eles tinham falecido. Todos os familiares, amigos e moradores da fazenda ficaram muito tristes, arrasados, porque ele era um homem muito bom. Mesmo sofrendo muito com a perda do meu marido, continuei firme e forte aqui na fazenda, sozinha durante muito tempo, com o apoio da nossa família.”

“Minha mãe, sua bisavó Eurídice, morava sozinha em Maceió nessa época, pois tinha ido cuidar do meu avô alguns anos antes de ele falecer. Todos os seus outros 7 filhos eram casados, muitos moravam em outros estados do Brasil.”

“Há cerca de 20 anos, Mamãe foi atropelada e quebrou o fêmur. Como estava incapacitada de se cuidar sozinha, veio morar aqui comigo na fazenda. Mesmo depois de curada, ela não demonstrou vontade de sair daqui, afinal de contas, éramos as duas sozinhas. Por isso, foi acordado entre os irmãos que eu tomaria conta dela. E assim eu faço até hoje.”

O semblante de Maria da Paz era cansado. Triste, não. Arrependido, muito menos. Eu precisava conviver mais com elas para descobrir o que existia por trás daquela história, eu necessitava do conhecimento do dia-a-dia delas.

Muitos dias se passaram, e eu sempre vagando por ali. Comecei a entender a rotina de Maria da Paz. Sempre muito preocupada com Eurídice, pois ela parecia uma criança, só que bastante frágil. Sempre “reinando”, mexendo no que não devia, sempre prestes a cair e se machucar. Fora isso, não havia maiores problemas. Todos os dias, às 9h, no volume mais alto suportado pelo aparelho eletrônico por conta da sua quase total surdez, Eurídice tinha de assistir à missa na televisão, já que não podia se deslocar toda semana para a cidade.

Vez ou outra ela dizia: “Maria, preciso me confessar. Eu vou morrer pecadora!”. E Maria dizia que assim que pudesse a levaria até o padre, e depois virava as costas, ria e murmurava: “Como uma criatura dessas tem pecado?”.

Toda semana, Maria se ausentava da fazenda por uns dias, e descobri que ela ia a Maceió visitar a família e resolver seus problemas. Outras vezes escutava-a ao telefone, conversando com suas filhas e dizendo que não tinha condições de viajar, pois não havia ninguém para cuidar de Eurídice. Nesses momentos, sim, ela ficava triste.

No mais, sentia Maria satisfeita com sua vida na fazenda, feliz por estar em um lugar tão abençoado, provavelmente fazendo o que gostava, a julgar pelo afinco com que o fazia.

Confirmei minhas hipóteses no primeiro Natal que passei com a família, agora a minha família também. Todos reunidos – filhos, netos, bisnetos e tataranetos -, rindo, comemorando, brincando, confraternizando. Naquele lugar, as diferenças não atrapalhavam a harmonia, e os sentimentos bons superavam as negatividades diárias.

E foi assim que eu fui me apaixonando pela família, especialmente por aquela mulher tão forte, tão amorosa e cuidadosa com a vida à sua volta. E eu, um mero beija-flor, com habilidades especiais, é claro, à procura das mais bonitas flores do mundo, acabei ficando por ali, inebriado por aquela aura natural inabalável.

Por Marcela Sampaio.

sexta-feira, 26 de março de 2010

Crenças e diplomacia.


Olá, caros leitores.


Perdoem-me pela longa ausência, mas estive passando por momentos de pouca inspiração.


A ideia para o post de hoje foi despertada por um dos meus programas de TV favoritos: House, a série médica mais inteligente da televisão, na minha humilde opinião. Logo após assistir a um dos episódios de temporadas passadas, corri para escrever meus devaneios no papel, já que o pecado da preguiça atingiu-me fervorosamente, e eu não tive forças para ligar o computador e digitar.

Protelei, protelei, mas, devido a um espaço no meu apertado horário de estagiária/estagiária/estudante que surgiu por conta das falhas dos mecanismos atuais de tecnologia, resolvi escrever para vocês. Lembrando que minha companheira de estudos, Ribeiro, salientou a minha ausência. Dedico estas palavras a ela (como se alguém se importasse).


Enfim, lá vamos nós.

O episódio do dia era “House x Deus”. Eu fico fascinada quando alguém tem a coragem de lidar com temas, digamos, delicados.

Venhamos e convenhamos, Ciência e Religião formam uma dicotomia, um antagonismo que poucos têm peito para confrontar. Medicina, ciência. Religião, incerteza, intangibilidade.

São coisas completamente opostas (nada mais óbvio), mas que, às vezes, complementam-se.

Quando uma explicação não dá certo, a outra vem logo em seguida.

Que fique claro que não estou desmerecendo a fé de ninguém, muito pelo contrário, sou uma cristã fiel.


Ao episódio.

O caso a ser resolvido pela super equipe de House era o de um “pastor mirim”, um fanático religioso que dizia ter o dom de curar as pessoas. Aconselhava os fieis que frequentavam a sua Igreja a nunca procurarem médicos, já que Deus fazia as escolhas para a vida de cada um.

Certo dia, o pastor passa mal, e, adivinhem só a quem ele recorre: aos médicos.

Durante todo o episódio, os médicos tentam descobrir o que o adolescente de 16 anos tinha, enquanto ele afirmava veementemente que conversava com Deus. A suposta prova para suas palavras estava em ele saber de aspectos peculiares de cada integrante da equipe.

Ok. Os médicos descobrem que ele tinha “esclerose tuberosa”, algo que justificava todos os seus sintomas.

Em um de seus acessos de delírio, o adolescente encontra uma paciente de câncer terminal e afirma curá-la ao tocar sua pele.

Surpresa!

Dias depois, o tumor havia regredido.

O paciente fica triunfante, claro, ao provar o seu dom. House, por sua vez, fica inconformado com o suposto milagre.

Resumidamente, descobre-se que o pastor havia falado umas mentirinhas, não era mais virgem, e havia contraído herpes através do sexo. Ao tocar a paciente, o vírus foi transmitido e atacou precisamente o tumor (uau!), fazendo-o regredir. A pobre mulher alimentou falsas esperanças, pois o tumor voltaria a crescer poucos meses depois.

Engraçado é que, enquanto eu escrevia este texto, eu mudei de opinião sobre o tratamento da questão por parte dos produtores da série.

Deixem-me explicar.

A minha “pseudoindignação” residia no fato de que todas as soluções foram encontradas para explicar o tal milagre. Nenhuma delas era justificada pelo poder de Deus.

Entretanto, obviamente, uma série médica deve defender os princípios científicos, não os religiosos.

Acontece que, inteligentemente, os produtores deixaram sutis sinais de que uma força maior pode ser, sim, a responsável por todos os acontecimentos da vida.

E nada melhor do que um belo final diplomático para o episódio: House 3 x 3 Deus.


Será que foi Deus que iluminou as cabeças dos produtores para o fechamento do episódio?


Boa noite, fiquem com Deus, Jah, Iemanjá ou qualquer dos deuses em que vocês acreditam. Ou fiquem sozinhos mesmos.


Abraços,

Luminosidade.

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Eu fico imaginando...

Eu fico imaginando coisas.
Eu fico imaginando loucuras.
Eu fico imaginando realidades.
Eu fico imaginando...

Eu fico imaginando experiências, rumos, vidas.
Eu fico imaginando injustiças.
Injustiças? Em cada cabeça, o que seria isso?
Eu fico imaginando a imaginação das pessoas.
Eu fico imaginando as diferentes reflexões.
Eu fico imaginando sempre...

Eu fico imaginando revolta...
Eu fico imaginando ação...
Eu fico imaginando mundanças...
Mas o que eu fico imaginando mesmo é como pode ser possível que haja tanto conformismo no mundo.

Daí eu imagino que, em um belo dia, eu vou parar de imaginar e vou agir. Simples assim. Enquanto isso, eu fico imaginando...

E fico imaginando como minhas ideias são inocentes, utópicas, surreais.

E por isso vou imaginando, sempre e cada vez mais.




Luminosidade.

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Patologias.

Ok, eu não deveria estar escrevendo neste momento.
Ou melhor, deveria, mas não as inutilidades que estou prestes a falar.
Deveria, na verdade, estar escrevendo minhas matérias do estágio.
Ops! Eu já cumpri minha pauta de hoje!
Estou liberada.

Como eu sempre pude atestar, minha frequência de postagens nas férias é muito maior do que aquela nos períodos de aulas e trabalhos.
Sim, eu estou de férias. Por enquanto, só da Ufal, mas estarei completamente livre de obrigações daqui a alguns dias.
Não consigo expressar meu alívio e felicidade.

Enfim, deixemos minha imaginação fluir.

Alguém já parou para pensar o quanto reclamamos? De tudo.
Do sol, da chuva. Do calor, do frio. Da fome, da saciedade exagerada. Do ódio, do amor. E de infinitos outros antagonismos.

Com certeza, a maioria das pessoas tem consciência de que reclama demais da vida. "Poxa, Fulano sofre tanto. Como posso reclamar da minha vida quando eu tenho muito mais do que eu preciso?".
É assim que eu penso, pelo menos.
E tento reclamar ao mínimo.
Mas, só de pensar que eu não posso reclamar, eu já reclamei anteriormente. Compreendem meu raciocínio?
Inconscientemente, ou nem tanto, eu já estou reclamando.
É incrível o quanto encontramos motivos para reclamar.
É quase uma doença, se não o é!

Agora, sejamos honestos.
Como é bom reclamar.
Como é prazeroso jogar a culpa nos outros, tentar nos livrar nos nossos problemas.
Tudo bem que depois vem a conta, a consciência bate na porta, cai a ficha, aquela ficha que nos obrigada a encarar a realidade.
Aquela ficha que nos mostra que, de fato, não há do que reclamar, na maioria das vezes.
A reclamação é quase um passatempo.
Não temos o que fazer, vamos reclamar.
Adorável.

Mas sabem que reclamar às vezes dá certo?
De tanto a gente se queixar de uma situação, aquela velha força superior transforma isso para nós.
Foi por isso que eu me inspirei hoje.
Reclamei, reclamei, e aqui estou eu. E daqui a pouco vou para casa.

Até a próxima!




Carinhosamente,
Luminosidade.

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Novos dias?

Hello, everybody.
I am back.
Ok, saudades de falar em Inglês.

Enfim, algo me fez voltar.
Aquelas inspirações repentinas, que vêm bem esporadicamente devido às obrigações diárias.
Quando um jornalista só escreve por obrigação, acabou sua vida. Por isso não tenho estado presente por algum tempo, porque prefiro esperar "aquela" vontade chegar.

Pois é, fim do ano se aproximando, época de fazer os balanços habituais.
O que fizemos de bom durante o ano?
Conseguimos cumprir as nossas promessas?
Trancamos a boca? Perdoamos as pessoas? Nunca mais bebemos na vida?
São tantos os desejos, tantos pedidos...

O que eu acho incrível é a aura que o fim do ano tem, do tipo que transforma a cabeça das pessoas.
Todo mundo se contagia, todo mundo quer drásticas mudanças na vida.
Mas ninguém repara que é apenas mais um dia após o outro.
De 31 a 1, mais um mês virado.
Só isso.

Eu sou a primeira a apostar todas as minhas forças no ano que vai chegar.
É incrível como a gente planeja um ano inteiro só durante alguns dias.
E é incrível como a gente quase nunca alcança tudo que a gente almeja.
Às vezes, por esquecimento, desvio de objetivos.
Às vezes, porque simplesmente as coisas não mudam de um dia para o outro.
Simples assim.

Aliás, por que as pessoas piram em ocasiões festivas?
Do nada, no Carnaval, quem era o mais comportado dos seres humanos passa a ser a mais pervertida criatura do planeta, por exemplo.
Como assim?
O que esses dias fazem com as pessoas? Que tipo de droga é borrifada no ambiente?
Acho bem exótico.
E bem curioso o fato de as pessoas serem surpreendentemente flexíveis, quase voláteis.

A natureza humana é digna dos muitos estudos e especulações que a rodeiam.

Que venha mais um ano, então.
E eu juro que estarei na beira da praia pedindo tudo que eu consigo e prometendo tudo que é impossível de cumprir.







Boa noite,
Luminosidade.

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Brumas nebulosas.

Olá.
Voltei, ainda meio sonolenta.
Publico aqui uma espécie de tradução, uma matéria publicada em um jornal impresso transformada, por mim, em Jornalismo Literário. Ou quase.


Os dias que se vão na rapidez das águas que evaporam dos oceanos trazem consigo acontecimentos corriqueiros. Viver é aguardá-los, presenciá-los, ruminá-los ou driblá-los. Surpresas, obviamente impensáveis, são o tempero que tornam a vida árdua de se viver. E é esse tempero que dá a graça de que a história precisa para ser contada.
Longo dia de trabalho. Lar. Repouso. Novo dia. Café da manhã em família. Consulta da agenda de compromissos. Ao trabalho. Rotina. Rotina?
Crianças morrem a esmo neste lugar, tão belo por fora, tão podre por dentro. Falta de alimentação, de saúde, de estrutura, de cuidados. Resolver tais problemas é fundamental para o crescimento de qualquer república. Os pequenos deveriam ser o futuro. Mas eles só declinam. Há quem acredite na solução.
Quarta-feira, 17 de junho de 2009. Cada passo marcado é concretizado, como a marcha dos soldados de um exército. O próximo é de interesse universal. Crianças para mudar o mundo. A mortalidade infantil deve ser erradicada em Alagoas. Enquanto não o é, vamos reduzi-la.
Governador, assessor, secretário estadual de saúde, piloto. A caminho de seu destino final, tripulantes do helicóptero do Estado, um Long Ranger azul, continuavam com suas atividades. Até que o inesperado (surpresa!) muda o curso do dia. O tempo, subordinado à instabilidade das moléculas da água, prega uma peça nos que dele dependem. E o pouso é forçado a mudar de lugar. Santana do Ipanema, Alagoas, é trocada por Bom Conselho, Pernambuco. E o que era para ser um discurso matinal virou um dia inteiro de receios e especulações.
Susto? Dizem que não. Um pouso, apesar de não aguardado, tranquilo, seguro. Assim como o último trecho, percorrido de carro. Surpresas que não afetaram o objetivo da causa. Missão, pelo menos verbal, cumprida.
E as brumas nebulosas que os fizeram desviar da rota e descer, agora ultrapassadas, comprovam que obstáculos sempre existirão, mas, para os que querem, há uma chance.

Boa noite,

Luminosidade.


sexta-feira, 3 de julho de 2009

Divagações.

E as chuvas de junho trazem de volta o que havia sido soterrado no inverno passado...

Permitir que a correnteza leve de volta a água, seguindo seu ciclo natural?

Ou deixar que o solo absorva e faça florescer as sementes plantadas em um dia esquecido?

Talvez aguardar a ação inesperada da natureza, capaz de usar sua fúria ou calmaria para transformar vidas.

O que vai ser?

terça-feira, 2 de junho de 2009

Resistência.

Resistência – A história de uma mulher que desafiou Hitler, como o próprio título já sugere, conta a saga de uma mulher e seus companheiros que participaram ativamente de um grupo contra o mais cruel ditador da História. A obra consiste em um diário minucioso de Agnés Humbert sobre os dias mais intensos vivenciados pela historiadora de arte e etnógrafa.

Nascida em 1894, em Dieppe, França, Agnés trabalhava no Museu Nacional de Artes e Tradições Populares, em Paris, quando seu país foi invadido pelos soldados do Terceiro Reich. Indignada com a ocupação e com as atrocidades cometidas por Adolf Hitler, ela põe para fora toda a coragem possível que a alimenta e se junta com antigos amigos para criar seu próprio grupo de resistência. Idênticos em pensamentos e ideais, tais amigos tornaram-se símbolos do primeiro e talvez do mais significativo movimento da França na Segunda Guerra Mundial.

Em se tratando da história do grupo, o que torna essas pessoas tão significativas é a magnitude de suas personalidades, de sua força de vontade. Todos os membros tinham plena consciência de que um dia seriam descobertos por suas ações ousadas e descaradas, e continuaram seu “trabalho”, tendo sempre em vista a libertação de seu amado país. O forte nacionalismo presente em cada um moveu suas ações do começo ao fim, e, por serem pessoas imensamente cultas e bem relacionadas, sua proposta não tardou a se espalhar como fogo em um rastro de pólvora por todo o país.

Desafortunadamente, um traidor infiltrado em seu grupo fez com que a maioria de seus companheiros fossem presos e severamente punidos. Entretanto, o que essas prisões e mortes não conseguiram destruir foram sentimentos de revolta e de sede de mudança, ideias essas já dissimuladas pelos jornais montados e distribuídos pelo grupo.

Entretanto, de tantas admiráveis ações relatadas no livro citado, a mais significativa, sem sombra de dúvidas, remete à própria autora. Estando presa por diversos meses na França antes de ser condenada a cinco anos de trabalhos forçados na Alemanha, Agnés não se deixou sucumbir pelos constantes maus-tratos que sofria ao longo de todas as prisões pelas quais passava, à exceção de um ou dois casos, já trabalhando como escrava, quando ela acreditou que seu corpo não mais tinha forças para continuar. Mesmo com todas as dificuldades, Agnés conseguiu escrever ou memorizar, para posteriormente colocar no papel, suas impressões de tudo ao seu redor. Sua precisão perfeccionista, seu tom irônico e ao mesmo tempo apaixonado pelo que fazia, sua incessante força de vontade e a maneira com a qual ela lidou com seus martírios por quatro anos, quando foi libertada pelos americanos, levam o livro a ser simplesmente surpreendente. Afora isso, a forma despudorada com que ela escreve sobre tudo de podre que acontecia no regime nazista, além do fato de ela ignorar o sentimento de medo, só podem provar que Agnés Humbert foi, de fato, uma das mulheres mais corajosas e fortes da humanidade.

Morreu em 1963, devidamente condecorada com uma medalha de Guerra pelo heroísmo vivenciado. É extremamente satisfatória a leitura de uma obra desse quilate, uma vez que sagacidade, inteligência e força feminina são somadas brilhantemente.




Beijos,
Luminosidade.

segunda-feira, 18 de maio de 2009

Radialistas.




Acredito que depois de ouvirem essa gravação, os caça-talentos ficarão surpresos com o nosso dom.





video

Luminosidade.

domingo, 17 de maio de 2009

Exemplos.

Bem-vindos de volta, caros leitores.


Há muito uma vontade avassaladora de escrever não me atingia. Estranho, até, uma vez que eu deveria me alimentar dessa ação. O fato é que temas não me ocorriam, minhas ideias estavam pobres, eu me encontrava amorfa. Felizmente, o desejo foi resgatado, desencadeado pela satisfação de ser tocado por algo que alguém fez ou por alguém que fez algo. A admiração de um trabalho incrível.

É da natureza humana inpirar-se e espelhar-se em alguma coisa para trilhar seu próprio caminho. Exemplos de vida e de trabalho são traçados para que outros possam segui-los. Sempre existe alguém que serve de modelo para outrem. E assim as pessoas vão vivendo, apoiando-se em conceitos de perfeição já estabelecidos. Até que outro alguém faz melhor do que o modelo anterior. Inicialmente, há resistência; em seguida, aceitação. E, assim, o mundo evolui.

É óbvio que existem aqueles que se recusam a ser iguais aos outros, e querem sempre fazer a diferença. Naturalmente, é graças a eles que as diversidades e os melhoramentos surgem. Mas, no fundo, esses "diferentes" acabam por resgatar algo do que se entendia por melhor anteriormente.

Acabo de assistir ao tão famoso filme "Capote", que conta uma parte da história de Truman Capote, o jornalista mais conhecido dos EUA, talvez do mundo, que revolucionou a literatura nos anos 60. Não vim aqui para escrever sobre o filme ou mesmo sobre o livro "A sangue frio", que tornou tal jornalista um dos mais consagrados da História. Ainda não tive a chance de lê-lo. Pretendo, sim, mostrar a minha admiração pelo trabalho desse homem, que, a partir de hoje, é meu exemplo.

A "receita" básica que se espalha pelo mundo para ser um bom jornalista é a seguinte: apenas misture curiosidade, objetividade, neutralidade, amor pela profissão e uma boa escrita e, voilá, serás um profissional razoável.

Todavia, quem quer ser somente razoável? Ninguém! Eu não quero. Acontece que ser um jornalista não é apenas retratar o factual, o corriqueiro, o banal. Porque tudo isso é vida. Todo jornalista é alguém. Alguém com conteúdo, emoções, sentimentos, ideias. O bom jornalista não é aquele que não se envolve com nada, que está sempre alheio ao interior das pessoas ao redor. Não. É aquele que consegue perceber que os outros estão vivos. É aquele que compreende os vários lados do prisma que é o homem.

E foi isso que Truman Capote fez em seu último livro. Sim, o livro era um "romance de não-ficção", em suas próprias palavras, e, logo, exigia uma abordagem diferente. Entretanto, o que é admirável é a capacidade que ele teve de conquistar as pessoas que precisavam atravessar seu caminho. A princípio, sua lábia era premeditada. Mas, na medida em que ele se envolve com o enredo, com o caso, com os assassinos, Capote vai se tornando cada vez mais sensacional. Ele constrói uma amizade com os réus, amizade esta que vai te custar a paz. Como "bom jornalista", seu dever era acabar com ela, retornar à objetividade. Em vão, tentou. Era tarde demais. Ele já estava emocionalmente envolvido. E assim ficou para sempre, mesmo após a morte por enforcamento dos culpados. Provou, dessa forma, que ele sentia.

Para mim, isso é um Jornalista, com letra maiúscula.
Porque envolver-se não é errado. É humano.




Luminosidade.